Sobre o meu papel como contadora de histórias

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Faz tempo que não atualizo o blog. A vida anda apressada. Mal tenho tempo de escrever (o que tem me deixado triste). Contudo, hoje, as palavras fluíram facilmente e decidi fazer este post.

Quem me conhece (pessoalmente ou através do blog) sabe que saí do RJ, vim pra BH, passei por mil e uma coisas (como falta de emprego, vontade de ter minha casinha, etc.) e cá estou na luta. Bom, dentre muitas coisas que faço para garantir uma graninha no fim do mês, nasceu uma nova profissão: contadora de histórias.

O post de hoje, na realidade, será uma espécie de “desabafo” sobre isso. O que é legal, pois estou pensando seriamente em fazer da contação de histórias uma pauta no blog. Poderia apresentar a profissão, indicar livros, filmes, etc. Enfim, é uma! De qualquer forma, lá vai o desabafo!

Sobre meu papel como contadora de histórias (ou a decepção de alguns quando chego).

Lembro-me bem das primeiras histórias que ouvi. Na realidade, bem… bem não lembro não, pois acredito que devo ter ouvido muitas histórias antes dos 8/9 anos. E não parou por aí. Creio minha mãe me contou história até os 19 anos (quando saí de casa) e até hoje, ao visitá-la lembro-me da criança de joelho ralado implorando: conta aquela de novo mãe?

Mamãe, não era doutora, médica, professora, muito menos leitora voraz (hábito que tento até hoje encucar em sua cabeça: – aqui mãe, lê essa revista então… tá contando o final daquela novela… ó!).
Contudo, minha mãe, era/é uma verdadeira MESTRA quando se põe a narrar sua vida.

Com voz e sotaque, mamãe contava sobre sua infância em Recife, a casa de pau a pique, o dia que uma cobra apareceu por lá e ela ficou desesperada. Fora a alegria das tardes em que escorregava aquele monte enorme de areia e caía direto no açude. Quase esqueci de comentar: dizem as línguas fofoqueiras, que embaixo d’água os meninos davam beliscões nos bumbuns das meninas e por esta razão, minha bisavó a proibia de escorregar e nadar… mas ela ia assim mesmo!
Minha mãe nunca precisou usar peruca, roupas escalafobéticas, pompons, nem nada para me contar histórias. Mas ela sabia usar a voz. Ah, e como!
Voz alta, voz com cara de gargalhada, voz medonha, voz com açúcar, voz seca… ufa, eram tantas!

Quando percebi, quem contava as histórias pros irmãos mais novos, era eu! E não só pros irmãos por parte de mãe, mas também pras duas pequeninas (agora moças) por parte de pai. E depois pros aluninhos da escola do meu pai. Depois pros colegas do ensino médio. E depois de muitos depois, um amigo me pagou para contar histórias para um projeto escolar. E a partir desse dia, entendi que contar histórias, poderia ser (também) uma forma de garantir um troco no fim do mês.

Bom, o motivo pelo qual comecei a escrever este post é o seguinte:
hoje bem cedinho me arrumei para contar histórias em uma escola estadual. Desde ontem, pensei no cabelo, coloquei um tênis bacana (daqueles que a garotada curte), uma camiseta de cor vibrante, aquele olho estilo gatinho, um batom fraco e fui.

A moça que nos recepcionou me olhou de uma forma diferente, mas achei normal, pois quem trabalha em escola mal tem tempo para “olhar” alguma coisa! Enfim…
A quadra estava lotada. Alunos de todas as idades. No meio do vazio, era só eu e o microfone. Olhos atentos. Comecei.
Apresentação, risos, uma breve introdução, gargalhadas e finalmente a história. Como na maioria das vezes, ouve interação, rostinhos felizes, caras de espanto, música e etc. No final das contas (e do conto) os alunos bateram palmas e me emocionaram ao dizer:
– Amei o seu show!
– Foi o melhor “teatro” que já vi!
– Me chama para contar histórias com você! – e por aí vai.

Contudo aquela moça que citei linhas acima, não estava satisfeita. Sentou ao lado da colega que me contratou para tal trabalho e expressou sua perplexidade ao ver uma “contadora de histórias” que não se vestia de determinada forma, não trouxe brinquedos, fantoches, nem nada parecido (como a contadora de histórias que vai lá toda quarta)…
– Como é que pode se apresentar assim?

Minha primeira reação foi obviamente, aquela tristezinha, afinal sou de peixes né, sentimental toda a vida. Além do mais, não é a primeira vez que questionam isto. Logo depois, pensei melhor e resolvi escrever.

Há pouco, fiz um curso da Aletria, intitulado “A arte de contar histórias”. Dentre inúmeras coisas, aprendi que um contador de histórias não é um ator (MONT’ALVERNE). Ponto.
Claro que o contador de histórias pode ser ator, contudo, isto não é um pré-requisito.
Quando penso em contadores de história, lembro de minha mãe, das professoras da escolinha, dos amigos e atualmente da minha mestraRosana Mont’Alverne, com quem aprendo diariamente.
Nunca associei um contador de histórias à um ser com peruca por exemplo. Sim, com pessoas que tinham boas histórias na ponta da língua.
História boa é contada embaixo de árvore ou no quintal da casa, com todos deitados, sentados ou amontoados, nas tardes de primavera. É aquela hora em que se desliga a tv e damos lugar à imaginação. O gosto em ouvir boas histórias continua latente dentro das pessoas (pelo menos, dentro de mim).

“Minha irmãzinha, se você não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas com as quais costumávamos atravessar nossos serões, para que eu possa me despedir de você antes do amanhecer, pois não sei o que vai lhe acontecer amanhã.” – Trecho do Livro das Mil e uma Noites
(JAROUCHE: 2008, p. 56 )

O contador de histórias é um portador da língua viva e desta forma, propagamos as narrativas através dos tempos. Cada vez que conto uma história, sentimentos e vivências universais (como medo, amor, desesperanças, obstáculos, vitórias) são revividos pelo ouvinte em uma realidade não cotidiana, permitindo a quem ouve, o acesso à uma experiência única.
Para que isso aconteça é preciso, logicamente, técnica, uma boa história e amor pelo que faz.
Confesso que a técnica ainda precisa (e muito) ser aperfeiçoada. Em relação às boas histórias, inúmeros livros já estão na estante esperando uma proveitosa leitura. Creio que terei muitas oportunidades de sentar e escutar histórias e estórias. Aliás, um bom contador de histórias também precisa saber ouvir. Já o “amor pelo que faz”… ah, isso tenho um tantão!
Sendo assim, acredito piamente que não preciso de uma caixa com surpresas, uma peruca cor-de-rosa, nem pompons cor de anil para conseguir a atenção dos ouvintes. Preciso sim, de uma boa história.

Gostaria de deixar claro que acho legal quem utiliza todos os aparatos possíveis para fazer a história acontecer de forma lúdica.
E nem estou dizendo que nunca contaria uma história vestida de bruxa. Pode ser até que um dia, use pompons! O ser humano muda de ideias o tempo todo!
Contudo, hoje, comparo meu modo de contar histórias à um livro sem gravuras, em que o ouvinte pode imaginar e adentrar outro mundo, livremente.

Lado a lado com a mixórdia de idéias, estilos, compreensões do papel do contador de histórias e um sem número de possibilidades narrativas, surgiu a inquietação: qual o valor de todo o repertório que carregamos, se muitas das vezes uma apresentação pomposa agradaria mais?

É no vácuo deixado por esta pergunta, impossível de ser plenamente respondida (ainda mais em uma sociedade em que imagem é tudo), que prefiro calar, voltar o meu olhar para as crianças e lembrar das falas carinhosas e abraços sinceros que recebo.

Só pra terminar: (alguns) adultos são muito chatos.

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Eu tenho um álbum muito legal no facebook, da vez que passei uma semana contando história nos distritos de Conceição do Mato Dentro – MG. Para ver, basta clicar AQUI!

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Dos que amo: MEU CORPO

Anteontem rolou um protesto online. Um protesto à pesquisa, cujo resultado foi lamentável (link da pesquisa AQUI).
Tirei a roupa e entrei na onda. Me despi como assistente social, intelectual, pesquisadora, blogueira e principalmente, como mulher. Mulher que tem um corpo. Corpo que não DEVE ser violado. Não DEVE. PONTO.
Não importa a roupa que você use: mulheres de burca também são estupradas.
Não importa a hora que ande na rua: mulher que trabalha cedo é estuprada.
Não importa o local que frequente: crianças em parquinhos são estupradas.
Não importa que esteja em casa lavando louca: mulheres casadas, afilhadas, primas, etc, são estupradas no próprio lar.
Mulher não é alvo em que você mira pensando: ah, essa quer ser estuprada.
Mulher não é objeto para satisfazer intuitos brutais.
Se uma mulher for ao motel com o cara que ama e não quiser ter relações sexuais, ela DEVE sair ilesa. E se o cara a obrigar, é ESTUPRO.
Tudo feito sem CONSENTIMENTO é estupro!
Por isso tirei a roupa. E muitas mulheres de coragem também.
Mesmo que alguns venham com a falácia do tipo:
“mostrar o peito não muda nada”
“Maria da Penha não precisou mostrar o peito para ser respeitada”
“bla bla bla”…
Fica a reflexão: Por causa desse “ato”, desprovido de pudores, a mídia pode mais uma vez tocar no assunto. Desta forma, muitas pessoas puderam mudar seus pensamentos. Outras, mesmo que não mudassem, viram a outra face da moeda. Enfim. Todo ato tem sua intenção e a nossa cumpriu um trajeto muito bonito: trajeto do afeto, trajeto das pessoas que pela primeira vez tiveram coragem de dizer que sofreram abuso, trajeto que me fez encontrar em outras mulheres minha própria face, meu próprio corpo.
A blogueira que vos fala, acredita sim, que uma pessoa mal intencionada vendo você de roupa curta, sentirá mais desejo e cometerá esse ato.
Mas a mesma blogueira, defende a ideia de que ANDANDO DE ROUPA CURTA OU NÃO, em hipótese ALGUMA MERECE ser ESTUPRADA.
Eu não mereço.
Você não merece.
Sua filha que sai com a blusa grande mas chega na escola e coloca a barriga de fora não merece.
Sua sobrinha que vive de short curto não merece.
Sua prima que dança quadradinho de 8 na rua, não MERECE.
NÓS NÃO MERECEMOS SER ESTUPRADAS!
Aliás, peço um FAVOR à todos aqueles que curtem o Dos que amo, seguem o blog, etc: se você NÃO CONCORDA COM ISSO, faça-me um IMENSO FAVOR: NÃO CURTA  a página no facebook, não SIGA O MEU BLOG, se por acaso achar que me viu na rua, VIRE A CARA PRA MIM.Hoje em dia, quem toma as rédeas do meu corpo sou eu. Ninguém brinca mais com ele como quando eu tinha 3/4 anos de idade. Ninguém me obriga a ficar nua e me toca, como quando eu tinha 7 anos de idade. Eu era uma menina e sofri isso dentro de casa. Dói demais. Sempre doeu. E a vergonha de dizer isso pra alguém, achando que EU era a culpada me consumiu até os 13 anos, quando tive coragem de contar pra minha mãe, que precisava trabalhar para me manter, visto que meu pai morava em outro estado. Nunca imaginaria que a vizinha de 15 anos que brincava com a filha a molestava. Não imaginava que quando a filha ia visitar o papai nas férias era molestada. Aliás, nem o pai sabia. Eu não contava.  E aquele cara que apareceu na frente de casa com uma bicicleta… eu tinha um estojo de maquiagem na mão… esse cara, me levou pra algum lugar e só me lembro de chegar em casa chorando, sem meu estojinho e dormir, sem falar com mamãe que estava trabalhando. Esse fato, o cérebro fez questão de apagar por completo. Não lembro quem foi, não lembro o que houve, não lembro como cheguei, só me lembro da porra da bicicleta vermelha e da cara do homem. Espero nunca lembrar do que aconteceu. Nunca.
Quando minha irmã nasceu, eu tinha 7 ano de idade e mitas vezes, brincando com ela, dava vontade de fazer as mesmas coisas que faziam comigo, como uma forma de “revanche”. Mas mesmo tão menina, chorava e sentia vergonha de pensar nisso. Chorava e decidi superar tudo, não sendo um reflexo pra minha irmã do que me atormentava. E hoje, tenho 4 irmãos mais novos que amo de paixão e só de imaginar que poderiam ter sofrido algum tipo de moléstia, sinto ódio, raiva, repulsa e tento os proteger com unhas e dentes.
Enfim.
Até hoje sinto vergonha do meu corpo, às vezes nojo de mim. Mas isso é coisa que precisa ser trabalhada com o tempo. E agradeço muito ao meu ex namorado, com o qual morei anos, por me ajudar cada dia a superar isso e perceber que sexo é algo bonito e não uma tortura. Mesmo ele, tendo sofrido mitas vezes por isso. Um grande homem. Ele está dentro do meu coração pra sempre. Assim como todas as pessoas que aparecem em minha vida e me ajudam a superar essa novela cruel.
E é por isso que tirei a roupa! É por isso que bato no peito: ninguém MERECE ser estuprada. Ninguém merece ser TOCADA!Eu AMO respeito, lutarei por ele até onde for preciso. E respeito é algo que roupa nenhuma deve ditar.Ps: sei muito bem que posso ter ido longe demais expondo certas coisas e fatos, mas espero de coração que isso possa ajudar outros a se livrarem de seus medos e fantasmas. Os meus vez ou outra retornam, mas aos poucos vão sendo trancados num lugar que em breve será uma mera lembrança.

#EuNãoMereçoSerESTUPRADA

#EuNãoMereçoSerESTUPRADA
Aproveito o ensejo para publicar por aqui, uma foto/frase que postei no Instagram e que acho bem coerente com esse sonho de poder mudar algo um dia:
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” Não quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar.” ~ Che Guevara ♥

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