Do caderno de receitas: aprendendo a (gostar de) cozinhar.

Cozinha Dos que Amo (1)

Infelizmente esse não é um post com receitas de bolo, nem massas, nem nada. Digo infelizmente porque ainda não me “instalei” definitivamente em BH. Na realidade só agora, começo de dezembro vou ter uma cozinha pra chamar de minha. Espero que saia muita gostosura de lá! Ah, claro que “sairá” do forno, direto pro blog, pois amo compartilhar receitas e afins. :D

Acontece que cozinhar é uma de minhas *inúmeras* paixões, assim como cantar, dançar, interpretar, contar histórias, fotografar, remendar, costurar, desenhar… tudo “AR”! Hahahaha! Brincadeiras a parte, dia desses me peguei pensando nessa “paixão”. Assistente social que sou, que adora desvelar as coisas que parecem simples e acredita (na verdade tem certeza) que não existe “essência”… nada é do “nada”, tudo é “construído”; comecei a buscar informações sobre essa “onda/moda” de amar cozinha(r) e tudo mais.

– Porque “onda” Jhê? Cozinho desde sempre e nunca foi uma “onda”, uma “moda”, sim necessidade e amor blá blá blá.

Devolvo a pergunta. Será que não é uma “onda”, uma “moda”? Será?

Pois bem. Lembro-me de começar a cozinhar com 12 anos. Digo co-zi-nhar. De verdade verdadeira… não fazer miojo.
Mamãe trabalhava o dia inteiro. Sempre deixava comida pra nós (eu, acompanhada de dois irmãos mais novos). Depois da escola, a Jhê aqui servia o papá pros maninhos e comia toda contente. Até que um dia não deu tempo. Mamãe não fez o rango. Não tínhamos nada preparado. A única coisa que tínhamos era uma baita de uma fome!

Ora, já tinha visto mamãe cozinhar várias vezes e minha comida preferida era (e ainda é) macarrão. Macarronada, macarrão ao alho e óleo, macarrão aguado, com linguiça, eeeeita, eu amo de qualquer jeito. Olhei o armário. Oba! Tinha macarrão! Decidi ler atrás do pacote e (surpresa!!!) lá estava uma receitinha rápida de molho. Corri atrás da cebola, extrato de tomate, azeite, alho e sal. Era rápida e simples messsssmo.
Resultado: segui direitinho e consegui fazer. Os pequenos almoçaram, me esbaldei e depois do descanso arrumei a casa feliz (sim, eu arrumava a casa todos os dias e ficava um brinco!), me sentindo “a” independente!
Depois disso nunca mais parei. Na verdade, também não parei porque mamãe descobriu meu dom (ah, tá) e começou a ensinar um bocado de coisas. Ou seja: se livrou de mais uma “jornada de trabalho” enquanto eu ganhei mais uma tarefa (apesar dela insistir que eu “não fazia nada”, blé! ;P).

Muitos, assim como eu, cozinham desde novos. Outros não. Pra mim, cozinhar é uma arte! Me encanto com os desenhos que as frutas e legumes fazem na bancada e com a transformação dos alimentos.
Mas vamos combinar, que com o passar dos anos, cozinhar ficou hype.
Virou status.
Eu achava que estava sozinha no mundo com esse “achismo” até ler uma pesquisa sensacional que, sem mais delongas, dividirei com vocês!

O nome dela é Débora

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Débora Santos de Souza Oliveira, historiadora da alimentação da USP, percebeu a mudança de comportamento da sociedade brasileira em relação à comida e foi logo atrás de respostas.
Ora, há 20 anos atrás, cozinhar era:
1º: necessidade doméstica
2º: meios de se “ganhar” a vida” pra quem não tinha outra opção.
Enquanto hoje é praticamente um “ritual sofisticado”.

Eu queria entender como um hábito que era motivo de vergonha entre as mulheres se tornou a moda do momento.
Oliveira

Cozinha Dos que Amo (2)

À partir de tal questionamento, para entender essa transformação, Débora estudou o ensinamento culinário ao longo da história brasileira e nos presenteou com os seguintes fatos:

– As escravas é que tinham a “moral” na cozinha. Aliás, nas casas, sequer existiam cozinhas, mas espaços para preparar o alimento do lado de fora.
Obs: o que podemos constatar quando visitamos casarões turísticos, etc.

– Com a abolição da escravatura, as negras/escravas, foram substituídas  por empregadas domésticas nas casas mais “abastadas”. Quem eram? Imigrantes europeus e japoneses.

Elegante era não sujar as mãos na cozinha.
Oliveira

Logo, a “classe média” (odeio esse termo, e tenho um longo debate em relação a isso, mas enfim) que não tinha o “privilégio” de ter uma empregada, começa a buscar conhecimento culinário. Em seguida surge o que? Os famosos “livros de receitas”!

Cozinha Dos que Amo (3)Cozinha Dos que Amo (5)A mocinha ajuda. O mocinho olha.

De acordo com a (também) historiadora da alimentação Cristina Couto, os primeiros livros de receita vieram com a família real (1808) cheios de quitutes europeus, nada acessíveis ao nosso povo do Brasil brasileiro.

Depois chegam as indústrias alimentícias e fabricantes de eletrodomésticos… o que, sem dúvidas, impactou na culinária brasileira.

Cozinha Dos que Amo (6)

Se nos anos 50 as mulheres (praticamente) aprendiam a cozinhar lendo as receitas que vinham nos rótulos dos produtos, nos anos 90, com a chegada de produtos importados em paralelo com cursos de gastronomia no ensino superior, cozinhar por profissão deixa de ser tarefa, para virar, até mesmo, oportunidade de experiências gastronômicas para os filhos de endinheirados.

Cozinha dos que amo

Antes rótulos para pobres. Depois ensino superior para ricos. A mudança foi tanta que até a televisão ganhou seus programas culinários!

Acooooooorda Lôro José!

Detalhe: outrora apresentados por senhoras ‘goidinhas’, donas de casa felizes. Hoje (a maioria): chefs celebridades.

Aí é aquilo né? Enquanto os mais “pobres” ficam felizes da vida em sair de casa e poder “comer fora”, os ryyycos fazem mil cursos e pilotam seus fogões (numa puta de uma cozinha), apresentando aos amigos (ô status) os sabores peculiares da culinária Tai chi chuan (que nada verdade é uma arte marcial chinesa, mas eu fiquei imaginando como seria legal se fosse um tipo de culinária).

Cozinha Dos que Amo (4)

Cozinha Dos que Amo (7)

Segundo Débora:

Outros modismos são a comida orgânica e a ética, aquela considerada sustentável.

Claro que concordo total e em partes.
Total porque isso foi “construído” e não foi pelo pobre não.
Em partes porque, acredito, que estamos cada vez mais engajados, na busca de coisas mais naturais, menos abrasivas a nós, ao meio ambiente e tudo mais…
Fazendo o advogado do diabo aqui, vamos combinar (também) que esse discurso cai por terra até mesmo pelas empresas que pregam esse blá blá blá de “responsabilidade social”, pois na maioria das vezes é tudo paliativo. E outra: comprar coisas orgânicas é supimpa, mas é bem mais caro né seu moço? Minha mãe não compra. Minha tia não compra. Minha avó não comprava. Bando de pobre. *Fui irônica*.

Enfim… achei bem interessante e por isso decidi dividir com vocês.
É claro que tenho certeza que cozinhar é/tornou-se um hobby, paixão, alquimia, delicioso, não nego. Mas é sempre bom ver (concordando ou não) tudo de diferentes ângulos né? Assim como a história, é a culinária. Cheia de surpresas. O que seria de nossa língua se não pudesse ser surpreendida com tantos novos sabores? Mentes “abastecidas” rendem bons caldos! ;P

Fonte:
Revista IstoÉ
Google
Para ler mais:
“A transmissão do conhecimento culinário no Brasil urbano do séc XX” (Débora Santos de Souza Oliveira)

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4 comentários sobre “Do caderno de receitas: aprendendo a (gostar de) cozinhar.

  1. vc é uma figuraça, conheci seu blog por causa da Couer de Pirate, mas cada vez que recebo um email me surpreendo. Estou tentando trazer a Beatrice para o Brasil, fui vê-la em NY ( ela é demais). Gosta de vinhos?.

  2. Genteeeee, vocês curtem Cœur de pirate *ö* que lindo!! Hahaha… Que legal!
    Eu conheci em 2011, bem no finalzinho do ano… estava fuxicando na net músicas em francês e pá, encontrei e me apaixonei!
    E bem legal o post sobre a culinária. Eu sou péssima na cozinha, aliás, não mais… de tanto tentar, tentar e tentar, estou começando a acertar! Quem estava me salvando era marido, que cozinha bem pra caramba hahaha…

    Beijão!

    • Pois é, esse post mostra pras mulheres ou qualquer um, que não são “menos” ou “mais” que ninguém por não saber cozinhar, ou não ser tão boa assim! Pelo contrário. A história constata que a cozinha, tal como se mostra e desenvolve atualmente, é fruto de um passado e de uma “necessidade”. Cozinhar é um aprendizado! Logo logo você está fera! ;P

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